Vistoria de entrada: o laudo que decide a discussão da saída
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PROVISÓRIO: bloqueio B5. Mesma observação do artigo sobre garantias: texto de
engenharia, limitado ao que está na Lei 8.245/1991 e conferível no Planalto,
escrito para que a fundação da C1 tenha conteúdo real. Sem número de mercado,
sem prazo comercial, sem descrição de como a Provela opera: o processo de
vistoria da plataforma é das Sprints 5 e 8, e as regras da operação são B5.
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Quase toda discussão de devolução de imóvel é a mesma discussão: o dano já
estava ali ou apareceu durante a locação? Quem responde essa pergunta não é a
memória de ninguém. É o laudo de vistoria de entrada, ou a falta dele.
## O que a lei pede, e de quem
Duas obrigações se encaixam, e é o encaixe que interessa.
O artigo 23, inciso III, da Lei 8.245/1991 diz que o locatário é obrigado a
restituir o imóvel, finda a locação, **no estado em que o recebeu**, salvo as
deteriorações decorrentes do seu uso normal.
O artigo 22, inciso V, diz que o locador é obrigado a fornecer ao locatário,
**caso este solicite**, descrição minuciosa do estado do imóvel quando de sua
entrega, com expressa referência aos eventuais defeitos existentes.
Repare no detalhe que muda tudo: a obrigação de descrever é do locador, mas ela
nasce de um pedido do locatário. Se ninguém pede, ninguém deve, e a locação
começa sem nenhum registro do estado em que o imóvel foi entregue. Meses depois,
"o estado em que o recebeu" vira uma frase sem referente, e a conta da pintura
sobra para quem tiver menos paciência de discutir.
A conclusão prática é direta: solicitar a vistoria de entrada é interesse do
inquilino, e transformá-la em etapa padrão é interesse de todo mundo. Um laudo
custa uma manhã. Uma discussão de devolução custa semanas e o relacionamento.
## O que precisa estar no laudo
O texto legal fala em descrição minuciosa com referência expressa aos defeitos.
Traduzindo para o que se leva na prancheta:
- **Cômodo por cômodo, item por item.** Piso, parede, teto, rodapé, porta,
janela, vidro, fechadura. "Sala em bom estado" não descreve nada.
- **Os defeitos, nomeados.** "Trinca de cerca de um palmo na parede da sala,
atrás da porta" é uma referência expressa. "Pequenas imperfeições" não é.
- **Fotografias datadas e referenciadas no texto.** A foto sozinha prova pouco
se ninguém sabe de qual parede ela é. O laudo aponta a foto, e a foto tem
data.
- **Instalações em funcionamento.** Torneiras, descargas, tomadas,
interruptores, chuveiro, campainha, portões. Testados, não olhados.
- **Leitura dos medidores.** Água, luz e gás, com o número anotado. É o que
separa a conta do morador anterior da conta do novo.
- **Chaves e controles, contados.** Quantas chaves de cada porta, quantos
controles de portão, quantos cartões de acesso.
- **Pintura, com detalhe.** Cor, tipo de tinta e estado. É o item que mais
aparece em cobrança de saída, e o que mais depende de registro na entrada.
- **O que veio junto.** Armários, luminárias, aquecedor, ar-condicionado, e o
estado de cada um.
## A parte que costuma ser esquecida
**Assinatura dos dois lados, com uma via para cada.** Um laudo que existe só no
arquivo da imobiliária é um documento que o inquilino pode alegar nunca ter
visto.
**Prazo para contestar.** Quem recebe as chaves e encontra algo que não está no
laudo precisa de uma janela combinada para apontar, por escrito. Sem essa
janela, o laudo vira a versão de um lado só.
**A vistoria de saída comparada com a de entrada, no mesmo formato.** Dois
documentos com estruturas diferentes não se comparam: viram duas narrativas.
Mesmos cômodos, mesmos itens, mesma ordem.
## Desgaste natural não é dano
O artigo 23, III, ressalva as deteriorações decorrentes do uso normal, e essa
ressalva é lei: não é concessão do proprietário.
Tinta que perdeu viço em três anos de moradia é uso normal. Parede furada para
prender uma prateleira é alteração. Rejunte encardido é uso normal. Box
quebrado não é. A fronteira nem sempre é óbvia, e é exatamente por isso que o
laudo de entrada importa: ele não resolve a definição de desgaste natural, mas
estabelece o ponto de partida a partir do qual o desgaste é contado.
Sem esse ponto de partida, a discussão deixa de ser sobre o imóvel e passa a ser
sobre quem lembra melhor. É uma discussão que não tem vencedor.